TITLE: Cidades Fantasmas da China: Lugares Abandonados e Suas Lendas

TITLE: Cidades Fantasmas da China: Lugares Abandonados e Suas Lendas EXCERPT: Lugares Abandonados e Suas Lendas

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Cidades Fantasmas da China: Lugares Abandonados e Suas Lendas

A paisagem da China é pontilhada por assentamentos abandonados que borram a linha entre falhas de planejamento urbano moderno e folclore sobrenatural antigo. Essas "cidades fantasmas" (鬼城, guǐchéng) existem em duas formas distintas, mas estranhamente paralelas: desenvolvimentos contemporâneos deixados vazios por erros econômicos e locais históricos abandonados devido a desastres, guerras ou — segundo a lenda local — forças sobrenaturais que afastaram os habitantes. Ambos os tipos de cidades fantasmas se tornaram repositórios de contos de espíritos errantes, almas inquietas e entidades malignas que se recusam a deixar o passado enterrado.

A Natureza das Cidades Fantasmas Chinesas

O termo "cidade fantasma" carrega significados diferentes dependendo do contexto. As cidades fantasmas modernas são tipicamente grandes desenvolvimentos imobiliários construídos para acomodar populações que nunca chegaram, deixando bairros inteiros de torres de apartamentos, centros comerciais e infraestrutura vazios. Essas ruínas contemporâneas rapidamente acumularam seu próprio folclore sobrenatural, à medida que os locais relatam fenômenos estranhos nos edifícios vazios.

No entanto, as verdadeiramente assombradas cidades fantasmas da China são muito mais antigas — assentamentos abandonados há séculos que se tornaram pontos focais para atividades sobrenaturais. Esses locais estão frequentemente associados a eventos históricos trágicos: massacres, pragas, desastres naturais ou purgas imperiais que deixaram comunidades inteiras mortas ou deslocadas. Na crença popular chinesa, tais mortes violentas ou prematuras criam 冤魂 (yuānhún, espíritos injustiçados) que não conseguem seguir para a vida após a morte e, em vez disso, permanecem nos locais de sua morte.

Fengdu: A Cidade dos Fantasmas

Talvez nenhum lugar na China seja mais sinônimo do sobrenatural do que Fengdu (丰都, Fēngdū), no Município de Chongqing. Conhecida como a "Cidade dos Fantasmas" ou 鬼城 (Guǐchéng), Fengdu tem sido associada ao submundo chinês por quase 2.000 anos. Segundo a lenda, dois oficiais da Dinastia Han — Yin Changsheng e Wang Fangping — praticaram cultivo taoísta na Montanha Ming (名山, Míng Shān) que sobrepõe a cidade e, eventualmente, alcançaram a imortalidade. Seus sobrenomes combinados, Yin-Wang, soam semelhantes a 阴王 (Yīnwáng, Rei do Submundo), levando à crença de que Fengdu era o portal terrestre para 地府 (Dìfǔ), o reino dos mortos.

Os templos e estruturas da cidade são dedicados a retratar a jornada da vida após a morte. O mais famoso é o Templo do Filho do Céu (天子殿, Tiānzǐ Diàn), que abriga estátuas de 阎罗王 (Yánluó Wáng, Rei Yama), o juiz supremo dos mortos. Os visitantes devem atravessar a 奈何桥 (Nàihé Qiáo, Ponte da Impotência), uma ponte de teste onde os justos podem passar em segurança, enquanto os pecadores caem nas águas abaixo, que se diz estarem cheias de espíritos vingativos.

Os residentes locais relatam numerosos encontros sobrenaturais, particularmente durante o 清明节 (Qīngmíng Jié, Festival de Limpeza de Túmulos) e o 中元节 (Zhōngyuán Jié, Festival dos Fantasmas), quando se acredita que a fronteira entre os vivos e os mortos é mais fina. Testemunhas descrevem ver procissões de figuras pálidas em roupas antigas caminhando pelas ruas antigas à noite e ouvindo os sons de lamentos e correntes se arrastando de edifícios vazios. Alguns afirmam ter visto 黑白无常 (Hēi Bái Wúcháng, Impermanência Negra e Branca), as divindades psicopompos que escortam almas para o submundo, caminhando pelas ruas de Fengdu após a meia-noite.

As Aldeias Afundadas dos Três Gargantas

A construção da Barragem das Três Gargantas criou um tipo diferente de cidade fantasma — ou melhor, cidades fantasmas no plural. Mais de 1.300 locais arqueológicos e inúmeras cidades e vilarejos foram submersos sob as águas crescentes do rio Yangtze entre 1994 e 2009. Entre eles estava a antiga cidade de Baidicheng (白帝城, Báidì Chéng, Cidade do Imperador Branco), parcialmente preservada em uma ilha, e incontáveis assentamentos menores que desapareceram completamente sob o reservatório.

A inundação deslocou mais de 1,3 milhão de pessoas, e segundo o folclore local, muitos dos mortos enterrados em cemitérios ancestrais não foram devidamente realocados. Na tradição chinesa, perturbar sepulturas sem o ritual adequado pode criar 厉鬼 (lìguǐ, fantasmas ferozes) que buscam vingança sobre os vivos. Pescadores no reservatório relatam ver aldeias inteiras submersas brilhando sob a superfície da água em noites de neblina e ouvindo os sons de sinos de templos tocando das profundezas.

Uma lenda particularmente persistente envolve a cidade de Dachang (大昌, Dàchāng), um assentamento de 1.700 anos que foi completamente submerso. Os locais afirmam que durante certos períodos do ano, quando o nível da água cai, os topos dos edifícios emergem do reservatório, e aqueles que se aventuram perto relatam ver pegadas molhadas levando da borda da água para as colinas circundantes — pegadas que pertencem a nenhuma pessoa viva. Essas são atribuídas a 水鬼 (shuǐguǐ, fantasmas da água), espíritos dos afogados que buscam arrastar os vivos para a água para tomar seu lugar, permitindo que o fantasma seja reencarnado.

Fonte da Lua Crescente e a Cidade Enterrada de Loulan

Nos desertos de Xinjiang está a antiga cidade da Rota da Seda de Loulan (楼兰, Lóulán), abandonada por volta de 500 d.C. quando o lago próximo de Lop Nur secou. A cidade foi perdida para a história até sua redescoberta em 1900, e suas ruínas permanecem um dos locais arqueológicos mais misteriosos da China. Os restos mumificados encontrados na área, preservados pela extrema secura do deserto, alimentaram lendas de uma cidade amaldiçoada.

Segundo o folclore local uigure, Loulan foi destruída não por causas naturais, mas por um poderoso 沙魔 (shāmó, demônio da areia) que surgiu quando os governantes da cidade ofenderam os espíritos do deserto. O demônio convocou uma enorme tempestade de areia que enterrou a cidade em uma única noite, aprisionando seus habitantes vivos. Viajantes do deserto relatam ouvir vozes pedindo ajuda debaixo das dunas de areia e ver figuras em roupas antigas caminhando pelas ruínas ao crepúsculo, apenas para desaparecer quando se aproximam.

O relato sobrenatural mais famoso envolve a "Beleza de Loulan", uma múmia de 3.800 anos descoberta...

Sobre o Autor

Especialista em Espíritos \u2014 Folclorista especializado em tradições sobrenaturais chinesas.

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